quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Quando era silêncio.

Lembro que quando eu era criança eu era muito quieta, muito tímida. Acho que isso é normal quando se é pequeno, embora as pessoas falantes demonstrem isso desde de pequenas. Isso não aconteceu comigo. Eu sei que tem gente que pensa que gente quieta é infeliz, mas te digo que era mais feliz quando vivia em silêncio. A vida acontecia tudo aqui, dentro da minha cabeça. Talvez tivesse sido a escolha dos tímidos, mas talvez eu não fizesse questão de me relacionar. Isso poderia até ser inconsciente.
Um dia, a vida me levou a ter voz, eu não sei por quê. Tem muita gente tímida que continua até o fim, e por mais quieta que eu ainda seja eu já quase não encontro nada de mim. Deixei as pessoas baterem na porta e até entrarem. Eu aprendi a gostar das companhias, mas não aprendi a gostar das descobertas. Ás vezes me dá uma vontade de voltar pra dentro, igual se faz a tartaruga. Mas pro meu azar não sou tartaruga, sou gente.
O que me incomoda de verdade é que quanto mais eu vivo, menos eu acredito, menos eu consigo. Vou descobrindo problemas que antes estava solto, e que agora eu descubro, e que agora me descobriu. Me sinto impotente, e ás vezes insuficiente. Minha voz é cada vez mais ácida, ás vezes me assusta. Não quero mais sentir medo do mundo e nem de mim. Eu não quero desconfiar, quero acreditar.
"Sinto impulsos covardes, assustadiços e escapistas de voltar. Também porque sinto saudade, muita, de tudo. Mas sei que não devo"
Caio Fernando Abreu
Sandy Quintans 

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

O medo do mundo.


Ela passou a sentir medo do mundo. É triste pensar que quando somos inocentes não sentimos tantos medos. Pelo menos não medos reais. De repente ela observa as pessoas e percebe o quanto estão se vendendo por tão pouco. Tem medo que as pessoas passem a se comerem por dinheiro. Embora elas já se comam.
Algumas pessoas se questionam o por quê dela sempre procurar fazer o correto, ao invés de fazer o mais fácil. Ela sabe que ninguém é perfeito e que nem sempre dá pra fazer o que é certo mas pensou:
"As pessoas gostam tanto de facilidade que me fazem parecer Madre Tereza de Calcutá, e isso estou bem longe de ser."
Talvez possa parecer exagero alguém se espantar tanto assim com as pessoas. Mas acontece que ao passar dos anos ela percebeu que a grande maioria das pessoas não fazem nada realmente produtivo se for em troca de alguma coisa. Parece que a última moda que pegou foi pensar em si mesmo. O engraçado é que uma vez ela escutou alguém dizer que quando nós humanos passamos a viver em sociedade, abrimos mão da nossa individualidade. Talvez por isso pareça que não está dando muito certo.
Agora, quando ela se senta no ônibus tem de desconfiar até dos confiáveis. Tem de ter medo da pessoa próxima, não sabe bem aonde se sentar. Quando anda na rua não pode nunca ser distraída. E quando um político lhe prometer algo ela já sabe que não deve acreditar. Apesar de não saber muito em que acreditar ela sabe que antes de confiar ela vai ter de desconfiar bastante. E é por isso que ainda sente medo pelas pessoas e das pessoas.

Sandy Quintans

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

A falsa magra.


Hoje em dia me permito muito mais. Mais do que isso me permito falar. Por muito tempo isso não foi normal pra mim, sempre fui quieta. Nos tempos falantes ou nos tempos quietos, uma coisa sempre foi característica minha imutável, sinceridade. Tenho uma língua um tanto afiada, falo de mais. A parte chata é que falo a verdade, mas acho que todo mundo deveria ser assim. Por outro lado acho isso irônico.
Sabe aquela história de falsa magra? Então eu acredito que sou dessas pessoas. Parece que é , mas na verdade não é. Quando conto para as pessoas que doei sangue a primeira pergunta que me fazem é se tenho mais de 50 kg pra isso. Sim, eu tenho. 
Além de me considerar falsa magra, apesar de ser magra, também me considero falsa alta. Quem me vê em fotografias e depois me vê pessoalmente sempre diz:
"Pensei que fosse mais alta"
Eu causo essa impressão nas pessoas. Isso é porque tenho pernas longas.
Além disso também sou falsa inteligente. Eu sou inteligente, mas sou bem menos inteligente do que pareço ser. Quem me vê, sempre vê que estou com alguma coisa pra ler, textos, livros, revistas. Adoro ler, mas ás vezes sinto que tenho problema pra guardar informações. Ou falta de atenção mesmo. Não consigo falar sobre nada de verdade sem ser sobre eu mesma.
E em meio a essas falsidades, o que mais sei dizer são sinceridades. Em sua maioria ácidas sinceridades, das quais a maioria das pessoas preferiam que ficasse quieta. Em meio a essas falsidades é a falsidade que menos conta.

Sandy Quintans

terça-feira, 16 de agosto de 2011

O Zero à Esquerda.


As pessoas me olham como quem acha que alguém é um zero à esquerda. Não sei explicar. De repente comecei a pensar que devo ser mesmo insignificante. De repente começo a pensar que sou uma decepção na vida das pessoas. Elas deveriam estar esperando algo de mim. Mas pararam. Até em minhas tentativas de agradar eu desagrado.
Eu dou o melhor de mim e ainda sou esquecível. As pessoas não costumam nem lembrar do meu nome mais, agora sou "Stephanie". Eu não sei o que aconteceu. Esses dias eu entrei na comunidade "Eu tinha um futuro promissor". É assim que me sinto. Como alguém que deveria ter feito algo importante e que agora não é nada, nem promissora. Alguém que agora é ínvisivel. Será que devo me chamar "Amanda"?
Me sinto sozinha como alguém que deve ser esquecido. Conheço poucas pessoas que realmente acreditam em mim, e nem preciso dizer que uma delas é minha mãe. Passo os dias pensando qual foi aquele passo decisivo que acabou com tudo. Mas sei que deveria pensar em muitos passos.
Não gosto de discurso de auto piedade, mas não consigo parar de pensar nesse zero do lado errado. O zero que diz que se for apagado não mudará nada além de gasto com tinta. O zero que diz que não fará falta á ninguém. O zero que diz que não há crença de que você possa agregar valor. O zero que diz que tu não vira nem dez reais.
Talvez seja só mau humor.
Sandy Quintans.