domingo, 22 de outubro de 2017

Todas as formas de voltar pra casa



De alguma forma inexplicável sair de casa é uma forma de arrumar uma desculpa pra poder voltar. Existe uma expressão em inglês, que sempre me perguntam se eu estou sentindo, que é "homesick". Sempre que escuto isso minha cabeça traduz como "doente demais a ponto de querer ir pra casa". Eu também entendo como sendo uma versão do que é nossa querida palavra sem tradução "saudade".

Por muito tempo no intercâmbio - que logo completa nove meses, uma gestação - não senti saudade de casa. Acho que as primeiras semanas foi um período complicado de ajuste e depois virou um sentimento de que não havia muito para que voltar. Só depois de muito tempo longe de casa que me deu uma vontade forte de voltar pra lá. A vida fora dela já não era tão emocionante, embora fosse, porque eu estava atolada no pensamento de que só queria estar por um dia lá. 

Minha cabeça se ocupava em imaginar as minhas conversas com cada familiar meu, mesmo que conversar nunca foi o meu forte. De criar na minha imaginação o cheiro da comida da minha mãe e do meu pai. De jogar uma partida de um jogo qualquer com meus irmãos, que provavelmente eu fosse perder, mas que fazia parte do ritual todo. Só um dia. 

A verdade é que não havia a vontade de querer voltar pra casa pra sempre. Era mais um sentimento de conforto que eu buscava na grandeza do mundo e do cansaço do meu esforço pra transformar o lado de fora em lar. Era uma cansaço que me fazia pedir uma pausa básica, só pra descansar. Mas as circunstâncias não me permitiam parar.  

Não conseguia parar de pensar na minha família, no quanto eu queria que eles estivessem vivendo comigo o maior feito da minha vida até aqui. Era só isso, a companhia. Nesses pensamentos eu ignorava que todo o meu esforço havia conquistado realizações e que de fato algo havia sido construído e o lado de fora já podia ser chamado de casa. Mas ainda havia um desajuste. 

A gente só queria um abraço, sentir o cheiro da nossa casa uma vez, pra ter forças pra continuar do lado de fora. E assim a gente volta pra casa, só que dentro de nós. 

domingo, 16 de julho de 2017

Vivendo aleatoriamente


Eu tive que pensar em casa. Na vida que eu deixei quando fiz minhas malas. Há seis meses, eu estava decidida a dar adeus a tudo que eu conhecia. Tive que pausar um ciclo que fez com que eu sentisse que vivia um limbo sem fim, nessa coisa de tentar entender mais ou menos o que é esperado. 

Eu me lembro como se ainda estivesse acontecendo, de tão vívido, de estar encarando a tela do computador, sem entender muito bem os caminhos que minha vida iria tomar. Sem entender muito bem qual era a graça daqueles momentos de sonhos, sem grandes realizações. Bem, ninguém nunca havia dito que conquistar coisas fosse fácil, embora algumas façam parecer que sim, né? Eu pensei muito e muito no peso das minhas decisões e de certa forma preparada pra que isso pudesse implicar.

Mais o que nunca havia compreendido era como seria levar uma vida em um país completamente novo, numa cultura inteiramente diferente. Viver ficou descomplicado, justamente no momento mais complexo da minha existência. Eu estive presente. Sem futuro, sem passado. Apenas respirando, inspirando, absorvendo. Cada pedaço da existência daquilo que só existiu por muito tempo dentro da minha cabeça. 

Em algum ponto desses tempos loucos, eu apenas parei de ter medo. E fiquei. Mesmo que às vezes machuque pensar em casa e nas coisas boas que ficaram pra trás e que não couberam nas minhas malas. Ainda que muitas continuem existindo dentro de nós. 
 

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Até mais


Nesses dias aí completei duas semanas de intercâmbio. O engraçado é que parece muito com dois meses, de tantas experiências e coisas novas ao mesmo tempo. Vamos dizer que em um contexto geral a vida foi 50%, ás  vezes feliz, outras tristes. Por mais que tivesse pensado nisso, não tinha levado à sério que embarcar numa jornada é se despedir de quem somos

Eu coleciono filmes de experiências transformadoras (que até já compartilhei algumas escolhas lá no outro blog), mas nunca havia me enxergado para viver algo assim. Sempre fui uma observadora. Eu havia aceitado tanto o marasmo (que eu amo) que demorei uma semana pra entender que estava em outro país e ali seria minha casa dali pra frente. Aquilo ali não era uma viagem de férias, era toda uma transformação que acontecia em todos os segundos desde que saí do avião.

Quando peguei minhas malas e meu namorado pra estudar inglês do outro lado do oceano não sabia que eu iria enterrar o que eu era até o dia 27 de janeiro de 2017 - no momento em que me despedi daqueles que amo no aeroporto. Em duas semanas, tive que aprender não apenas um novo idioma, mas como fazer absolutamente tudo. Comer, se vestir (afinal, estou vivendo um inverno real pela primeira vez), beber café, se locomover, ir ao banco, nome das ruas, direções, costumes e uma infinidade de coisas que fazemos todos os dias sem perceber. Tudo ficou com cara de coisa nova, algo que nem sempre é fácil para aqueles com problemas de adaptação como eu. 

É voltar até aquela fase em que aprendemos a andar. Eu não sabia que encontrar a Sandy de alguns anos atrás, uma velha conhecida minha que era tímida demais pra ter amigos e que tinha medo da vida. Mas por sorte, quando eu deixei ela pra trás eu também aprendi a superar o que me afligia, aprendi a ter coragem

É por isso que espalhamos pelo mundo de que é melhor juntar dinheiro pra viajar. Porque embarcar é reconhecer o nosso redor e aprender muito sobre a nossa essência e do lugar em que consideramos o nosso lar e de onde está o nosso coração. Mas isso tudo não é uma regra de vida, é só um conselho. Por isso, tem tanta graça.

E agora eu sigo, nesse misto de despedida e de reconhecimento.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Horóscopo


Comecei a ler as previsões dos astros para o meu 2017, mesmo que na pática eu não acredite nisso. Tornou-se um passatempo divertido ler astrologia pra depois fazer um balanço sobre o que de fato aconteceu e rir das coincidências. Susan Miller fez a retrospectiva: "Em 2016 você se tornou mais otimista". Dei risada daquela que tinha sido a maior constatação do meu ano, porque de fato era o que acontecia. 

Foi em 2016 que assumi que sim, sou uma otimista, já não dava mais pra negar. Foi em cada cagada que aconteceu que tive que respirar e pensar: "tudo bem, eu posso conseguir resolver isso". E seguir. Justamente por tanta coisa errada que a parte 2 de 2015 (convenhamos, é o que é 2016) reservou pra gente, que tivemos que aprender a fazer algo melhor que uma limonada com os limões.

Eu não estou dizendo que foi um ano fácil, pelo contrário, duvidei da minha sanidade em diversos momentos e deu uma vontadezinha doida de desistir, de parar de acreditar. Mas todos os dias são de luta. E sempre foi assim, independente dos números do calendário. 

Minha breve retrospectiva sobre o que aconteceu nos últimos 26 anos me diz que encontrei muita coisa boa depois de outras que achei que não iria consegui superar. Vamos admitir e abraçar o fato de que coisas boas acontecem nos lugares mais improváveis. Foi assim que fiquei mais forte, que parei de ficar lamentando e espelhando a minha vida na dos outros. Essa vida é minha e só minha, por isso não tenho medo de que dê errado. A gente arruma depois o que tiver que melhorar. 

Detesto auto ajuda, mas estou aqui escrevendo um texto tão otimista que acabou virando algo sobre conselhos da vida pra te dizer que podemos acreditar mais e se desesperar menos, porque quase tudo na vida tem jeito. Só precisamos de uma mudança de perspectiva.