quinta-feira, 11 de junho de 2015

Insensível


A cada dia que passa eu sinto menos. Ainda consigo me lembrar de um tempo que tudo parecia demais. Que cada passo era como um milhão de pequenas faquinhas sendo colocadas delicadamente em meu corpo. Tudo doía mas que necessário. Decidi que não queria mais sentir assim, que a vida deveria seguir.

Quando a vontade era gritar, eu silenciava. E se fosse pra chorar, que fosse por dentro. E se fosse pra sentir, que fosse por mim. Apagar, anular, esquecer. E agora já não sinto nas mais. Ou quase. Me guardei em um casulo e parece que me perdi por lá dentro.

E foi aí que comecei a sentir demais por todo mundo. A dor de tanta gente sempre parece maior que a minha. Sou egoísta demais pra ter esquecido de mim, mas talvez eu tenha deixado de lado algumas dores. A vida dos outros é sempre mais interessante e estou sempre achando que aquilo não é comigo e que posso deixar de lado. 

Eu tive um instante em que decidi que não deixaria que nada impedisse de viver e fazer as coisas. Foi aí que fui enterrando as coisas e cavando cada vez mais fundo, pra não ter que me deparar mais com aquilo. Tenho medo de ter perdido a capacidade de sofrer. De ter medo. Eu não sei se vale a pena ser tão forte, porque às vezes estamos apenas escondendo uma fraqueza e não vencendo-a.

Ou pode ser que apenas esteja tudo pairando, pronto pra me pegar desprevenida. 

Sandy Quintans

domingo, 17 de maio de 2015

Farewell


É, eu sei, alguns laços se romperam e talvez não possam mais ser consertados. Pode ser que seja tarde demais. Ou apenas que não vale mais a pena lutar. Passei tempo demais pensando sobre isso, o passado, o que éramos e o que nos tornamos. Nada.

Passei tempo demais pra perceber que as coisas que me chateavam há anos atrás são as mesmas que ainda me deixam triste agora. Com a diferença que grande parte de mim se transformou, que fiquei a cada dia mais próximo de ser mulher e quase nada de ser menina. Foi aí que manter as coisas que eu fazia antes deixou de fazer sentido. Parece que tudo mudou pra mim, mas não pra você.

As coisas que faziam parte do que manteve nossa relação ser tão divertida já não me divertem mais. Na verdade, passaram a me deprimir, como pouca manteiga pra uma banda de pão muito grande. Há um universo que não consigo mais fazer parte, que não posso mais reconstruir porque esse tempo já passou. Passei pra próxima página deste livro, há um novo capítulo começando, um novo eu transformando.

Gostaria de trazê-la pra essa nova vida, mas cada vez mais a vejo menor, como alguém que ficou parado enquanto a gente se distancia, enquanto a gente se despede. Talvez seja uma boa hora pra dizer adeus, talvez seja uma boa hora pra me alcançar.

Sandy Quintans

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Paixão Platônica


Esses dias eu parei pra ler Anexos, o livro da Rainbow Rowell, que me fez pensar muito na minha adolescência. Além de ser muito engraçado, ele falava de um cara que trabalhava em um jornal, lendo emails dos funcionários. Até que um dia ele se apaixonada por uma moça que conversava por email com a sua amiga todos os dias. Ele se perde de amor só de ler as conversas dela. Daí ele começa a imaginar como tudo seria se aquilo se tornasse real. 

É bem provável que eu seja a rainha das paixões platônicas. Adorava fantasiar uma vida completa com qualquer carinha que eu achasse interessante. Eu arrumava paixões platônicas em cada lugar que ia, na escola, no ponto de ônibus, na igreja, no supermercado. Passava meses tentando encontrar determinada pessoa nos horários que vi pela primeira vez, podia ser só pra olhar, pra alimentar minha imaginação, pra tentar sentir o cheiro. 

O que mais me fazia amar esses meus relacionamentos de um lado só é que tudo era do jeito que eu queria. Poderia inventar diálogos inteiros de como nós nos conheceríamos, como seria o nosso namoro, em que lugares iríamos. Tava tudo ali prontinho na minha cabeça, até o dia que eu terminasse o relacionamento e partisse pra próxima paixão. Passei anos assim. 

(Mais uma vez, obrigada Rainbow Rowell por escrever livros tão deliciosos e me lembrar como é ser adolescente)

Sandy Quintans

quinta-feira, 12 de março de 2015

Vida temporária

"Life is what happens to you / While you're busy making other plans"*, disse John Lennon. E eu não poderia ser mais clichê na escolha de uma citação. Mas foi exatamente o que veio em minha mente no momento em que comecei a pensar no que estava fazendo, enquanto estava no caminho de volta pra casa. Foi então que percebi que tomei as circunstâncias da minha vida em algo temporário. Em algo que acontece antes da vida, do grande plano, do grande futuro. 

Deixei que a vida corresse seu curso naturalmente porque estava mais interessada na chegada até a margem. Permiti que meus meses fossem tomados por planos nenhum porque viver o agora não era bem o meu objetivo. Isso está errado. 

Parar pra pensar nisto me levou a entender que a vida está acontecendo agora, o tempo todo, diante dos meus olhos, passando despercebida. O tempo todo tem vida sendo vivida e não estou presente pra registrar. Não estou aqui pra me importar. E se o grande plano der errado? Vou viver esperando a vida acontecer? Acho que não. 

Sandy Quintans

*Trecho da música "Beutiful Boy", que faz parte do álbum Double Fantasy, lançado em 1980 por John e Yoko. Pode ser traduzido como: "A vida é aquilo que acontece enquanto você está fazendo outros planos"