segunda-feira, 27 de abril de 2015

Paixão Platônica


Esses dias eu parei pra ler Anexos, o livro da Rainbow Rowell, que me fez pensar muito na minha adolescência. Além de ser muito engraçado, ele falava de um cara que trabalhava em um jornal, lendo emails dos funcionários. Até que um dia ele se apaixonada por uma moça que conversava por email com a sua amiga todos os dias. Ele se perde de amor só de ler as conversas dela. Daí ele começa a imaginar como tudo seria se aquilo se tornasse real. 

É bem provável que eu seja a rainha das paixões platônicas. Adorava fantasiar uma vida completa com qualquer carinha que eu achasse interessante. Eu arrumava paixões platônicas em cada lugar que ia, na escola, no ponto de ônibus, na igreja, no supermercado. Passava meses tentando encontrar determinada pessoa nos horários que vi pela primeira vez, podia ser só pra olhar, pra alimentar minha imaginação, pra tentar sentir o cheiro. 

O que mais me fazia amar esses meus relacionamentos de um lado só é que tudo era do jeito que eu queria. Poderia inventar diálogos inteiros de como nós nos conheceríamos, como seria o nosso namoro, em que lugares iríamos. Tava tudo ali prontinho na minha cabeça, até o dia que eu terminasse o relacionamento e partisse pra próxima paixão. Passei anos assim. 

(Mais uma vez, obrigada Rainbow Rowell por escrever livros tão deliciosos e me lembrar como é ser adolescente)

Sandy Quintans

quinta-feira, 12 de março de 2015

Vida temporária

"Life is what happens to you / While you're busy making other plans"*, disse John Lennon. E eu não poderia ser mais clichê na escolha de uma citação. Mas foi exatamente o que veio em minha mente no momento em que comecei a pensar no que estava fazendo, enquanto estava no caminho de volta pra casa. Foi então que percebi que tomei as circunstâncias da minha vida em algo temporário. Em algo que acontece antes da vida, do grande plano, do grande futuro. 

Deixei que a vida corresse seu curso naturalmente porque estava mais interessada na chegada até a margem. Permiti que meus meses fossem tomados por planos nenhum porque viver o agora não era bem o meu objetivo. Isso está errado. 

Parar pra pensar nisto me levou a entender que a vida está acontecendo agora, o tempo todo, diante dos meus olhos, passando despercebida. O tempo todo tem vida sendo vivida e não estou presente pra registrar. Não estou aqui pra me importar. E se o grande plano der errado? Vou viver esperando a vida acontecer? Acho que não. 

Sandy Quintans

*Trecho da música "Beutiful Boy", que faz parte do álbum Double Fantasy, lançado em 1980 por John e Yoko. Pode ser traduzido como: "A vida é aquilo que acontece enquanto você está fazendo outros planos"

sexta-feira, 6 de março de 2015

O pote do final do arco-íris


Minha vida não me preparou para o que acontecia depois da faculdade. Na verdade, a de ninguém. Aprendi isso em Girls e nunca me senti tão parte desse clube como antes. E não sei dizer se é algo bom, vejo mais como uma constatação. 

Em meus anos pré-faculdade me imaginava dentro daquele universo acadêmico, realizando descobertas, modificando meu modo de ver as coisas. Tudo isso aconteceu, mas a gente sempre acredita que quando todas aquelas realizações terminassem, haveria uma revelação ali no final do arco-íris, como um pote de ouro.

Conquistei meu diploma, cheguei ao fim da linha e não sei o que fazer com isso. O problema é que a gente imagina todo o processo de ingressar na faculdade e que por mais interminável que ela pareça, ela vai ter fim. Aos poucos eu fui me inserindo em minha área de atuação, em conta gotas e quando percebi já estava lá. Não no tal destino dos sonhos, mas em algum lugar que poderia me levar a isso, em algum lugar que poderia proporcionar aquela revelação.

Que fase estranha essa, de não ter que frequentar aulas, nem se preocupar com trabalhos e provas, em como conciliar tudo isso com a sua vida. Estranha porque não sinto falta, pelo menos por enquanto. Estranha porque estou feliz com meu tempo livre, que até agora não se concretizou como “livre”, já que ele tá sempre ocupado. Estranha porque eu gosto do agora, mesmo sem saber o que ele significa. 

Eu não sei o que será da minha vida nos próximos meses, mas já consigo imaginar em anos, em futuros. Mesmo sendo planos estranhos, mesmo sendo dias estranhos. 

Sandy Quintans


sábado, 28 de fevereiro de 2015

Cinco dias


Quando era adolescente tinha um pouco de pavor quando me diziam que já namoravam alguém há cinco anos. Tinha o pensamento instantâneo de desperdício de tempo. Cinco anos na adolescência é como anos em vida de cachorro: tempo demais. Nos primeiros cinco da nossa vida é o ciclo que vivemos entre ser um bebê e se tornar criança. Uma diferença de eras. Agora, nós completamos cinco anos e tenho de dizer que imaginei pratos atirados, lágrimas demais, felicidade de menos.

Parece que foram cinco meses. Ainda sinto aquelas borboletas no estômago. Ainda sinto aquela vontade de estar o tempo todo juntos. Mas também sinto aquele sentimento parecido ao de estar em casa. De conhecimento, de como ser uma só coisa. Sinto a urgência de tonar nossas vidas em algo único, como quase ela já é. Como se cinco anos fossem apenas cinco dias que se passaram, quando comparado ao resto de nossas vidas. É apenas o começo de tudo. 

Sandy Quintans