sábado, 28 de fevereiro de 2015

Cinco dias


Quando era adolescente tinha um pouco de pavor quando me diziam que já namoravam alguém há cinco anos. Tinha o pensamento instantâneo de desperdício de tempo. Cinco anos na adolescência é como anos em vida de cachorro: tempo demais. Nos primeiros cinco da nossa vida é o ciclo que vivemos entre ser um bebê e se tornar criança. Uma diferença de eras. Agora, nós completamos cinco anos e tenho de dizer que imaginei pratos atirados, lágrimas demais, felicidade de menos.

Parece que foram cinco meses. Ainda sinto aquelas borboletas no estômago. Ainda sinto aquela vontade de estar o tempo todo juntos. Mas também sinto aquele sentimento parecido ao de estar em casa. De conhecimento, de como ser uma só coisa. Sinto a urgência de tonar nossas vidas em algo único, como quase ela já é. Como se cinco anos fossem apenas cinco dias que se passaram, quando comparado ao resto de nossas vidas. É apenas o começo de tudo. 

Sandy Quintans

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Kit de primeiros socorros


Eu estava sentada na minha cama lendo, enquanto meu namorado assistia vídeos no Youtube, como sempre fazia. Acho que via vídeos de músicas, talvez pra se inspirar e compor coisas novas, talvez pela simples curiosidade. E então nós as vimos, a dupla de irmãs suecas, Klara e Johanna que formam o First Aid Kit. É claro que naquela hora não sabíamos seus nomes ou origens, apenas que víamos algo que não se vê todos os dias. Assistíamos a duas meninas cantando em harmonia perfeita e com letras fortes demais para a idade delas, mas que dizia tanto. A canção era Ghostown, que fala sobre um amor não correspondido e que teve de ser deixado pra trás. Era incrível.

Sempre fui uma garota pop rock, que mais tarde acabou se provando um indie rock. Sabia pouquíssimas coisas sobre o folk. O máximo que tinha me arriscado era com Beirut e sua eterna Elephant Gun. Ou nas canções de Johnny Cash e Bob Dylan, que na maioria das vezes soava mais como um rock pra mim. Não entendia a linguagem daquela coisa nova que estava sendo cantada pra mim. O que eram aquelas harmonias? E de letras tão profundas?

Enquanto ele caía de cabeça no som daquelas meninas, deixei de lado. Mas depois que meu namorado ouviu tantas vezes o The Big Black and Blue, o primeiro álbum delas, acabei passando para o meu celular e ouvia aquilo sem parar.

Já havia me apaixonado por música algumas vezes. Aconteceu com o Elvis Presley, antes de conhecer os The Beatles e depois que os conheci também. Ou quando descobri Coldplay lá pelos meus 14 anos. Ou até mesmo nas vezes que me vi chorando com as carreiras solo de John, Paul e George. Ou com a Norah Jones. Até mesmo com Ryan Adams. Me apaixonar já havia acontecido diversas vezes. Mas aquilo ali que sentia por aquelas meninas era amor.

Fechava os olhos e parava tudo que tava fazendo pra mergulhar naquelas canções. Mesmo depois de ouvir inúmeras vezes. Prestava atenção em cada harmonia de vozes, nas letras, em cada instrumento. Quando The Lion’s Roar entrou na parada, o segundo álbum, o amor só aumentava. E daí veio Stay Gold este ano, que só trazia mais evolução da dupla de jovens artistas.

Já se passaram mais de três anos desde aquela tarde que as descobrimos. Quase nem tínhamos vídeos ou materiais para ler sobre elas, enquanto agora o mundo as descobre. Perdi as contas de quantas vezes sonhei que as conhecíamos ou que íamos a um show delas.

Geralmente quando escuto uma música repetidamente, acabo enjoando. Quando aprendo a cantar ela perde a essência. Não foi o que aconteceu com nenhuma canção de First Aid Kit pra mim. Porque estas canções elevaram a minha compreensão de música a um outro patamar.

Uma vez, li uma entrevista delas dizendo que não teve uma criação para a música folk, assim como aconteceu comigo. Mas um belo dia, elas ouviram uma canção de Bright Eyes e foi como uma revelação. A música folk para elas, assim como para mim, tem um significado muito sincero e com melodias que nem todos os gêneros consegue expressar.

Por isso, depois delas muitas outras bandas vieram, também tive minhas paixões dentro do folk. Mas elas permanecem como o kit de sobrevivência, um sonho que desejo realizar, um novo significado para a música. Tudo que elas tocam parece se transformar em ouro. Música atrás de música.

* Texto publicado originalmente em minha primeira aventura no Medium  

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Enfim o fim


Já sabia que 2014 seria um ano diferente dos outros, mas não alimentava nenhuma expectativa sobre isso. Sabia que teria trabalho demais pela frente com o fim da faculdade e esse era o meu único objetivo. Poderia ter sido um ano extraordinário e ele até que terminou com essa cara de fantástico, mas aí a gente para pra pensar um pouco mais e percebe que os percalços foram bem maiores.

Perder a Tatá foi uma coisa que me atingiu em cheio e passei alguns meses em desânimo. Parece que ela ainda está por aqui. Depois passei a maior parte do tempo ocupada demais com tudo que tinha que dar conta e muita gente não entendia o tamanho do fardo que estava nas minhas costas. Mas era o que eu podia aguentar.

Depois de três anos com um coração jornalista, consegui o meu primeiro emprego de verdade na área. Uma oportunidade que veio antes de terminar a faculdade e que significou muito pra mim. Hoje sou um tanto maior do que quando comecei 2014, não apenas pelas conquistas, mas também por cada dificuldade que fez do meu ano algo mais especial. 

Finalmente terminei a faculdade. Com a ajuda dos meus amigos e, principalmente, da minha família conquistei aquilo que mais esperei nos últimos quatro anos. Agora sinto que já posso ser o que quiser depois dessa etapa. Já seria aceitável ter filhos e casar. Seria aceitável priorizar a carreira. Seria especial sair da casa dos pais. E mesmo diante de todas essas possibilidades, espero do fundo do meu coração ter um ano pra pensar, pra ficar um pouco na minha e aceitar o limbo. 

No final das contas, esse foi o ano que mais fui eu na vida, mesmo fazendo coisas completamente novas pra mim. Percebi isso pelos presentes que ganhei, em que me apaixonei por cada um, por ser uma expressão de algo que eu sou. Até o meu aniversário eu comemorei. Fui em todas as festas que eu quis, aos shows que eu sonhei ir e exposições que não me esqueci.

Por fim, termino meu 2014 no blog que está de cara nova pra dizer que não espero nada do meu 2015. Quero surpreendida, mas também aceitaria ter um ano pra decidir o que eu gostaria de ser, agora que já sei que posso ser qualquer coisa. 

Sandy Quintans

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

O bom filho a casa torna


Eu criei esse blog há alguns anos e como eu disse aqui outro dia, ele me mostrou a minha paixão pela escrita e traçou meus caminhos pelos jornalismo. Passei parte da minha adolescência escrevendo aqui e a toda a minha breve vida adulta compartilhando a minha melhor forma de expressão. Sabe, não é muito tempo, mas é tempo suficiente pra eu saber que já não sou mais aquela garotinha que sofria de amor que começou a escrever em um blog. Tempo suficiente pra saber que aquela menina já não existe mais.  

Pra seguir minha paixão pela escrita eu tive de parar de escrever textos tão pessoais quanto aqueles que me ensinaram que essa poderia ser minha forma de ganhar o pão. Por mais que aos poucos eu passei a abandonar este lado, sempre quis manter o meu toque pessoal nos textos que escrevo. Mas tenho medo, tenho medo de ter esquecido quem realmente eu sou. Sinto, a cada dia mais, de que eu parei de olhar pra dentro, de que quase não tenho tempo mais pra saber quem eu sou. 

Trabalhar incessantemente nunca foi uma aspiração minha, embora a minha profissão exija e eu de fato acabo passando tempo demais pensando nas coisas que tenho de resolver do que no instante em que estou vivendo. Não penso mais em dor, meus sonhos são cercados de realidade e já quase não escrevo sobre meus sentimentos. 

Estou prestes a completar um ciclo na minha vida e, sem dúvida, está na hora de eu voltar a olhar pra dentro mais um pouco. Talvez até recuperar um pouco da minha essência e mesclar com o eu de agora. 

Minha mente expandiu demais além de mim e sinto saudades imensas do que eu fui, mesmo que agora seja um alguém melhor. Continuo a me sentir desenquadrada com a vida e sem querer ser o que todo mundo é. Mas eu pertenço a um lugar. Pertenço a um amor. Pertenço a um coração. Pertenço a uma casa. 

É bom estar de volta, mesmo que já não reconheça alguns cômodos desta casa.

Sandy Quintans